Terapia
Em que se fala sobre a necessidade de ser ouvida e compreendida
Acho que, chegados aqui, todos precisamos dela. Terapia para lidar com os efeitos de uma pandemia, com a ascensão da extrema-direita, com os efeitos perversos do capitalismo, com a falta de tempo e equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, com a transmissão em directo de um genocídio. A única forma de alguém não precisar de terapia é viver na ignorância, o que me parece perfeito, se me perguntam.
Faço terapia há 3 anos. Fui encaminhada pela minha médica de família depois de um episódio de burnout que me deixou paralisada e a achar que não sabia absolutamente nada sobre o meu trabalho. Lembro-me de chorar ao telefone com a linha SNS 24, lembro-me de chamarem o meu nome no altifalante das urgências e da vergonha que senti quando disseram “Dirija-se à área de Psiquiatria, por favor”. Tive vergonha e pensei que as pessoas iam pensar “Olha, lá vai uma maluquinha”. Lembro-me de tremer e chorar ainda mais quando fui vista por uma psiquiatra, de contar o que me afligia e de achar que o que eu estava a sentir era ridículo, havia gente com problemas a sério.
Foi-me assignada uma psicóloga 3 meses depois: uma profissional desafiadora, interessada, com paciência e empatia, alguém que me fazia pensar em tudo o que lhe dizia. Eu ansiava pelas nossas consultas porque sentia que ela me compreendia, que ela desafiava o que achava que era imutável, ela era quase uma amiga. E eu sei que isso é errado, que a relação deve ser de doente e profissional de saúde mas as sessões faziam-me sentir bem. Mas o que é bom também se acaba e a minha psicóloga decidiu seguir outro caminho, deixando-me entregue à profissional que a foi substituir.
Acertar num profissional de saúde que nos ouça e compreenda, com quem tenhamos aquela “faísca” é muito difícil, especialmente quando se sente que se acertou à primeira. A psicóloga substituta, apesar de boa profissional e (aparentemente, porque não a conheço) boa pessoa, não tinha em mim o mesmo efeito. Ouvia-me tranquilamente, confirmava o que eu sentia, dava-me razão nas minhas diatribes mas não me fazia pensar nem questionar porque sentia o que sentia, nem me incentivava a procurar ser melhor ou ser diferente. A nossa relação foi amigável e curta. Passado pouco tempo de me dar alta, senti necessidade de continuar a ter acompanhamento e consegui-o através de uma ONG.
Mergulhei na terapia por um burnout e a meio tudo mudou: descobri o cancro e todos os meus problemas profissionais passaram a ser secundários - tudo o que eu queria era viver. Não importava a minha incapacidade em discordar das chefias ou a minha dificuldade em impor barreiras e limites, só queria saber da doença. Neste caminho de terapia, fui agressivamente relembrada de que existe uma hierarquia de problemas e que o que hoje me impede de mexer, amanhã é um detalhe minúsculo sem a mínima importância. E também neste caminho fui apresentada a uma perspectiva nova sobre o que pode estar atrás de muitas doenças: o trauma. Não me interpretem mal: eu sou a maior defensora da medicina moderna e considero que sou imune a charlatanices. Mas em ocasiões anteriores já tinha sentido como era possível somatizar os problemas que não tinha coragem de dizer em voz alta e o meu corpo encarregou-se de me lembrar que eles estavam lá.
Ainda faço terapia com uma profissional, como disse. Mas agora também decidi que procuro pequenos momentos de terapia em acontecimentos do dia a dia: algumas páginas lidas, o riso dos meus filhos quando não estão à briga, imagens poéticas na internet, músicas que me fazem sonhar, preocupar-me com os outros, ir ao ginásio assim que acordo, tricotar peças iguais para os meus filhos. Consciente do meu imenso privilégio, valorizo estes momentos mas sei que talvez vá precisar de terapia para sempre.
Este texto foi escrito para responder a um desafio que partilho com algumas pessoas que admiro nesta internet, em que escrevemos sobre o mesmo tema todas as semanas. Esta semana escrevemos sobre terapias várias:
a Carla n’A curva -
a Rita no Boas Intenções -
a Maria João n’A Gata Christie -
a Calita no Panados e arroz de tomate - Terapia
a Mariana no Gralha Dixit - Terapia
a Joana n’O blog azul turquesa - Terapia
a Helena nos Dois Dedos de Conversa -




daqui a coisa de um mês devemos passar pela nossa terra partilhada.
podemos tentar uma terapia de amigos.
eu gostava muito e o nosso elo em comum tb!
:D