Santuário
Do nosso exercício semanal no Largo
Sempre tive dificuldade em compreender as pessoas que me diziam que bastava assumarem-se àquele largo enorme do Santuário de Fátima para sentir imediatamente o que descrevem como uma sensação de paz. Eu nunca senti paz na religião, apenas uma forte pressão para fazer o que está certo e uma culpa por nunca ser perfeita. Em nada.

Cresci, como provavelmente grande parte da minha geração, embalada pela fé católica, numa casa em que não se ia à missa regularmente. Fui batizada, andei na catequese, fiz a Primeira Comunhão e fiquei-me por aí. Lembro-me dos dias que antecederam a minha primeira confissão, dividida entre achar o que contar e não descobrir na introspecção que era uma má pessoa. Não me lembro se mais alguma vez me confessei, embora continue a fazer essa introspeção.
Os meus pais eram, portanto, católicos não praticantes mas a minha avó materna não: era uma crente empedernida, que ia à missa todas as semanas, provavelmente mais do que uma vez, sempre de braço dado com as suas irmãs. Não se podiam dizer blasfémias em frente à minha avó e a ideia de pecado estava sempre à espreita nas conversas. Um passo em falso e lá vinha o seu ar de desaprovação.
A minha avó não ia a pé até Fátima porque a idade já não o permitia mas levavam-na até ao largo do santuário e depois descia aquilo tudo de joelhos, num sacrifício que nunca serei capaz de compreender. Pedia por nós e levava velas do nosso tamanho também ao Senhor dos Aflitos, uma peregrinação aqui perto de casa. Para ela, Deus tudo via e tudo ouvia - nunca estávamos a salvo.
Talvez tenha completamente perdido o meu interesse e a minha sujeição (não gosto desta palavra neste contexto mas sinto que nos sujeitávamos a uma religião porque fazia parte da maneira de vivermos aqui) durante a adolescência, não sei. Durante uns tempos, todos os rituais me pareciam ridículos e impossíveis de entender. Depois veio a vida adulta e acho que há um momento de corte final quando se percebe que inocentes, como crianças, não são poupados nas doenças graves, nas guerras, nos desastres naturais. De certeza que há muita gente que me explicaria o porquê de Deus deixar isto acontecer, eu prefiro não perder tempo e fico-me com a minha ideia de que um Deus verdadeiramente bom não deixaria morrer estas pessoas.
Esta semana perguntaram-me duas vezes se queria inscrever os meus filhos em Educação Moral e Religiosa e duas vezes respondi que não. Os meus filhos convivem com crianças de religiões diversas e são muitas vezes lembrados que a ausência de uma relação sua com qualquer Deus pode ser trágica. Explicamos que é importante para muita gente viver os preceitos das religiões que professam, mas nós não sentimos essa necessidade. A nossa fé é na humanidade, não num ser imaginário1 qualquer que ele seja.
Ultimamente, com tanto que tenho chorado com tudo o que se passa no mundo, ficou-me mais claro porque é bom professar uma religião: imagino que deva ajudar sentir que se pertence a algo maior e que há razões que a própria razão desconhece para tudo o que vivemos de há uns anos para cá. A religião é um amparo, uma explicação mesmo que impossível, um aconchego. Acreditar que há uma razão para tantas crianças morrerem à fome ou debaixo de uma carpete de bombas, acreditar que as pessoas que ficaram esta semana soterradas nas suas casas sem poderem lutar foram chamadas para algo maior, acreditar que os milhares de pessoas que morreram a caminho de uma vida melhor têm garantida uma salvação divina - tudo são tretas para mim e reconforto para quem acredita.
A idade e o cinismo desta vida empurram-me para essa ideia de acolhimento e de tranquilidade que uma religião parece oferecer. Mas a resistência continua a mesma e o meu santuário… olhem, o meu santuário somos nós.
Porque supostamente tem poderes, não porque nunca existiu. Eu acredito, por exemplo, que Jesus Cristo existiu e andou por esta terra. Só não me peçam para acreditar em milagres de multiplicação, em ressurreição, em curas de doentes.


