Ruído
Do nosso exercício semanal no Largo
O concerto de Bad Bunny em repeat na minha cabeça. A menina francesa de 11 anos que foi encontrada morta perto de um celeiro. Demasiados posts de pessoas a quem morreu um gato. Donald Trump a ofender uma jornalista e a deixar a entrevista a meio. O sorrisinho cínico e insuportável do nosso primeiro-ministro. Os meus filhos sempre que lhe peço a coisa mais banal (lava os dentes/toma banho/faz a cama). Israel a bombardear Beirute e Gaza sem medo de represálias. Mães que choram os filhos mortos em tendas. Última semana de aulas do primeiro ano do mestrado. O Hunter Biden de volta ao Twitter. A Ucrânia a sofrer os maiores ataques russos mas a penetrar cada vez mais longe dentro do território do agressor. O Papa a lançar uma espécie de Cruzadas contra a IA. A greve geral que foi residual mas incomodou muita gente. Um ex-primeiro-ministro tenebroso que agora se tem de fazer ouvir todas as semanas. Bloqueio do Estreito de Ormuz por resolver. Preços a subir em flecha. Casas impossíveis de habitar por jovens e menos jovens da classe média. A comunicação social portuguesa completamente nas mãos da direita e da extrema direita. Uma ministra do Trabalho sinistra. Linhas vermelhas que nunca o foram. As pessoas cada vez mais egoístas, cruéis e desligadas da realidade. É 2026 e ainda há cartazes a anunciar touradas por todo o lado. É 2026 e ainda há pessoas que deitam lixo pela janela do carro. É 2026 e ainda há quem ache que tem alguma coisa a dizer sobre quem os outros amam. Os sons dos meus gatos quando querem alguma coisa. Um filho prestes a entrar no ensino secundário. Avaliação que mete medo e faz tremer. Um chefe novo (outra vez) com ideias novas (outra vez). Ler estatísticas sobre o que os rapazes pensam sobre as raparigas e estremecer. Tráfico humano em pleno século XXI em Portugal. Uma obra interminável. O Papa a ouvir um imigrante senegalês em Madrid. O casamento da Dua Lipa em Palermo a chocar (compreensivamente) os locais e a fazer sonhar todos os outros. O ódio que hoje existe para com quem acha que ninguém deve ficar para trás. O cerco americano a Cuba. A expressão cessar fogo a perder todo o seu significado quando usada por Israel. Os albaneses a manifestarem-se contra o empreendimento megalómano da família Trump. Inglaterra quase a ajoelhar-se perante a extrema direita. O falhanço liberal na Argentina e a Colômbia prestes a ceder também. Os pedidos de ajuda de quem sufoca em Gaza. O feminismo a ser mais do que necessário em 2026. O cansaço absoluto de um ano inteiro a levar filhos à escola, fazer lanches, assinar recados, assistir a reuniões, garantir que não falta material, explicar a importância da escola. Um governo a conseguir fazer apodrecer serviços públicos à velocidade da luz. O eforço para manter a quantidade de água e de páginas de livros diárias. Acordar todos os dias quando o sol está precisamente a nascer. Corpos debaixo de escombros, pequenas mortalhas carregadas pelos pais, milhares de pessoas sem terem para onde voltar. A gentileza da minha colega de turma que me trouxe broas caseiras porque a ajudei a resolver um pequeno erro num ficheiro de Excel. O mundo é horrível. O mundo é maravilhoso.
E todo este ruído me enche a cabeça todos os dias. Sem pausas, sem descanso, sem alívio. Só talvez quando são seis da manhã, a janela está aberta para os gatos poderem entrar e sair à vontade, a manhã está fresca e o Sol ainda mal se levantou - e só o chilrear dos pássaros rompe o silêncio.


