Pão
Em que se fala de um pequeno milagre que acontece duas vezes por semana
Tenho feito threads (fios) longas no Twitter (nunca me ouvirão a chamar-lhe outra coisa que não isto) para me obrigar a pensar em coisas bonitas (link aqui) porque, achava eu em 2024 quando comecei, que o mundo estava impossível de aguentar.
Este ano, decidi optar por pequenos prazeres (o que é mais ou menos o mesmo que coisas bonitas) porque sinto que me é muito difícil apreciar as coisas mais elementares: é difícil olhar para cima quando se está no fundo de um poço chamado Mundo. Tenho a sensação que muitos desses prazeres vão estar relacionados com a comida e ontem lembrei-me de mais um: fazer pão.
Faço tudo a olho com base numa receita bem famosa da Filipa Gomes: sim, adivinharam - a da pãodemia! Basicamente enfio 3 canecas de farinha T65, sementes a meu bel-prazer (girassol, abóbora, muita linhaça!), fermento de padeiro, uma pitada de sal e água morna. Este pão não se amassa, uso apenas um garfo para misturar muito bem todos os ingredientes e depois deixo a massa a levedar durante umas horas antes de ir ao forno num daqueles dutch ovens (tenho um parecido com este mas da marca Uno Casa, não precisam cá dos Le Creuset da vida, embora não desdenharia de uma panelinha dessas 😏).
Não consigo explicar bem a satisfação de não precisar de ir à padaria, provavelmente para comprar um daqueles pães sem graça que parecem feitos de ar. Quem cresceu alimentada a pão alentejano precisa mais do que isso! A casa fica com aquele cheirinho maravilhoso a pão quente, a miúda adora-o para as suas torradas de manhã e ele dura mais do que os pães de compra. Se eu pudesse (leia-se, se eu tivesse coragem 🤭), abriria uma padaria onde se venderia pão a sério e outras variações regionais (bolo sovado, boleima, bolo de azeite). Qualquer coisa em cima de uma fatia de pão é uma refeição e pêras!
(No ano passado, durante o período mais negro da ocupação de Gaza ou durante a Guerra dos 12 dias entre Israel e o Irão, li muitos testemunhos, vi muitas fotos (e até este video de um padeiro iraniano que dizia que o pão era a sua linha da frente, a sua forma de combater era alimentar os outros) que documentavam a importância central do pão nas suas mais variadas formas nas vidas destas pessoas: na maioria dos casos, era a única refeição que conseguiam, cozinhada sobre pedaços de madeira recolhidos das ruas destroçadas e partilhada entre crianças e adultos num momento solene. O pão permitiu a sua sobrevivência quando nada mais parecia possível. O pão era (é?) uma âncora destes povos sobre o mundo, a derradeira linha entre a morte e a vida nos momentos em que os mercados estavam fechados, os alimentos bloqueados à porta num misto de sadismo e castigo coletivo, a esperança já rarefeita. O pão, na sua simplicidade e presença milenar, salvou.)





O teu thread fez-me lembrar um substack que comecei a seguir há pouco tempo e onde vou comentar de vez em quando, quando preciso de me lembrar das coisas boas porque o mundo fica demasiado difícil: https://emilygainesdemsky.substack.com/