Napperon
Em que quase se consegue ouvir o som das agulhas
É inevitável pensar na minha infância quando ouço esta palavra. Esta palavrinha de origem francesa - uma toalhinha debaixo do telefone, uma toalhinha em cima da televisão, uma toalhinha nas costas do sofá - carrega em si o peso de muitas histórias e de outras tanta memórias.

Resta-me a ideia das minhas avós curvadas sobre si próprias durante horas intermináveis, à braseira (primeiro de picão e depois eléctrica), com a televisão num canal qualquer num volume capaz de despertar alguém de um coma, de agulha em punho e a trabalharem num ponto difícil qualquer.
O jeito das minhas avós com agulhas (para coser, bordar, fazer crochê ou tricotar) estava cimentado por anos de prática desinteressada, revistas de bordados e outras artes têxteis, linhas e lã compradas numa loja do comércio local que sobreviveu até aos dias de hoje numa cidade cada vez mais deserta. Talvez elas não soubessem como se chamavam os diferentes pontos, ou também não fossem capazes de explicar como alguém como eu podia começar mas o talento era-lhes natural.
Tricotar uma camisola, coser umas meias, crochetar um napperon eram actos pragmáticos e possivelmente nunca pensados como hobbies ou obras de arte. Eram actos necessários, inevitabilidades, expressões que ecoavam tempos milenares, automatismos nas mãos cansadas e gastas de Maria do Rosário e Eufémia. Os baús enchiam-se com colchas, toalhas bordadas e os bons dos napperons para os enxovais das únicas netas da família - eu e a minha irmã.
Estas celebrações das artes manuais não sobreviveram aos ares do tempo: já não enfeitam móveis nem camas, algumas mudaram de mãos dentro da família, outras desapareceram quando as casas se esvaziaram de vozes, hábitos, segredos e artefactos - quando parte da história da nossa família terminou. Eu consegui aprender a tricotar antes das minhas avós se irem e esse é o limite das minhas mãos mas a minha filha pediu-me para aprender a fazer crochet. Eu disse-lhe que não sabia e não era a pessoa indicada para a ensinar mas, quem sabe, ainda vamos crochetar um napperon a quatro mãos.
Este texto foi escrito para responder a um desafio que partilho com algumas pessoas que admiro nesta internet, em que escrevemos sobre o mesmo tema todas as semanas. Esta semana escrevemos sobre napperons:
a Carla n’A curva - Napperons
a Rita no Boas Intenções -
a Maria João n’A Gata Christie -
a Mariana no Gralha Dixit - Napperons
a Joana n’O blog azul turquesa -
a Helena nos Dois Dedos de Conversa -


