Cultivar o meu jardim
Em que se faz uma analogia evidente mas necessária
O meu jardim tem 14 anos no papel, embora tenha 17 anos de acordo verbal e muitos mais de existência lado a lado.
Passam hoje 14 anos do dia do nosso casamento, numa tarde de Segunda-feira em que eu pedi no trabalho para sair mais cedo porque me ia casar na 1ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa e a viagem de Carnaxide até quase a Picoas ainda levava um bom bocado.
Foi um casamento por conveniência, por imperativos fiscais, costumamos brincar: afinal, faltavam poucos dias para emigrarmos e era preciso sair de Portugal com as burocracias todas tratadas porque não sabíamos o que nos esperava do outro lado. Como testemunhas, os meus pais, a minha irmã, o nosso filho com pouco mais de um ano, a minha madrinha e filhos, todos os amigos que puderam comparecer, uma amiga feita pela internet a aparecer de repente com um ramo de flores. Eu não usei vestido de noiva e ele não usou fraque, o importante era estarmos ali. Mas levei um colar com três passarinhos: os pais e um passarinho bebé, era o símbolo do nosso ninho.
Casámos felizes, com a tranquilidade de quem sabe que é exactamente aquilo que queria estar a fazer e com a pessoa ideal, o que não é de somenos importância. Saímos da conservatória para a tasca dos nossos vizinhos lá na Estrela, onde se beberam minis e champanhe, onde se pediu qualquer coisa para picar. Depois, os meus pais ficaram com o miúdo e nós descemos a Calçada da Estrela para comer num restaurante japonês que entretanto desapareceu. Estava feito.
O meu jardim (ou talvez devesse dizer o nosso jardim) tem dado muito trabalho a cuidar e 10 anos de vida fora de Portugal foram, sem dúvida, uma verdadeira tour de force: ter de confiar e depender tão profundamente um do outro podia ter acabado com a alegria de sermos casados mas acho que conseguimos sempre relativizar até os momentos mais baixos, em que tudo parecia não ter solução. Ambos tivemos longos períodos de doença, períodos muito escuros de acordo com as minhas memórias, e de desespero porque há momentos em que nada há a fazer senão tomar conta do forte e esperar por melhores dias.
O jardim deu flores, que naturalmente nos convocam para que nada lhes falte em todos os momentos, e por isso às vezes esquecemo-nos de que também precisamos de ser regados. De vez em quando, que somos mais cactos do que plantas sensíveis.
Este texto foi escrito para responder a um desafio que partilho com algumas pessoas que admiro nesta internet, em que escrevemos sobre o mesmo tema todas as semanas. Esta semana escrevemos sobre tomar conta de jardins:
a Carla n’A curva -
a Rita no Boas Intenções -
a Maria João n’A Gata Christie -
a Mariana no Gralha Dixit -
a Joana n’O blog azul turquesa -
a Helena nos Dois Dedos de Conversa -




que lindo.