Consulta marcada
Uma espécie de terror a cada seis meses
A certa altura, a médica olhou para mim quase com ternura e disse-me
Sabe porque é que temos os nossos olhos aqui, nesta posição? Para nunca olharmos para trás.
Foi há quase três anos mas parece que foi há quinze minutos atrás. Repito na minha cabeça vezes demais os momentos chave: a descoberta do nódulo, a primeira suspeita de malignidade, a dureza da biópsia, o diagnóstico bomba, o dia da operação e a solidão da radioterapia. Não quer dizer que passe todos os meus dias a pensar nisso mas esta sequência passa-me pela cabeça mais vezes do que gostaria de admitir.
Três anos seriam, em teoria, suficientes para ter aprendido como lidar com a doença e com as consequências; três anos davam para treinar o meu inconsciente a não se alarmar à menor coisa e encarar a vida e a minha saúde com normalidade. E, depois de sofrer com novos tumores imaginários no princípio da recuperação, pensava que já me tinha armado das defesas necessárias para não sofrer em vão. Pensava, digo bem.
Já tendo passado a época das consultas de cirurgia e radioterapia, sigo o caminho com as consultas de medicina interna, um sinal que me devia deixar tranquila: afinal, o meu médico de radioterapia descreveu essa mudança como a passagem para a equipa de baixo risco. Motivo para celebrar, disse-me ele em setembro do ano passado e eu anuí, não havia nada melhor para ouvir naquele momento. A ansiedade estava mais controlada, já não me sentia perdida num emaranhado de doenças inventadas por mim, estava a fazer aquilo que todos esperavam de mim: viver.
Mas a cada seis meses a ansiedade regressa. À superfície, está tudo perfeito, a vida está a andar, é só apenas mais um controlo, as análises hão-de estar boas, tenho feito tudo o que posso para estar bem. Mas e algures dentro do meu cérebro, perdido no fundo bem recôndito do meu inconsciente? O terror. O medo irracional da doença em todas as suas outras formas, o fantasma da doença na sua repetição, os cenários dantescos, em que eu estou invitavelmente a morrer, a impressão de que tenho o corpo cheio de cancro, perdoem-me a terrível imagem. O choro a irromper nos momentos mais inesperados, a tristeza inventada de estar a viver os meus últimos dias, todas as coisas que ainda quero fazer - e tudo, com o seu peso insuportável, a somatizar-se de todas as formas possíveis. Desta vez, temia um cancro no pâncreas, talvez o mais mortífero e inclemente de todos os cancros, a dor a irradiar (pensava eu) do pâncreas para as minhas costas, primeiro intermitente, depois constante. Os sintomas pesquisados, mesmo sabendo que não existe maior erro; a repetição dos medos over and over and over na minha cabeça - viver assim cansa muito.
Mas depois chegou o dia da consulta e de conhecer a nova médica que me vai acompanhar agora semestralmente: uma profissional extremamente humana, que levou todo o tempo necessário a esclarecer-me as dúvidas (aparentemente, o pâncreas nunca dói 🫣) e a dar-me conselhos preciosos - tudo enquanto me sugeria, gentilmente, que devia retomar o acompanhamento psicológico. Explicou-me cada grupo de indicadores nas análises ao sangue, elogiou-me a camisola que eu própria tricotei e disse-me algumas coisas muito simples, que eu também sei mas que escolho esquecer muitas vezes: a doença já foi, já passei por ela; ela pode voltar, como podem aparecer outras doenças ainda piores (embora na minha cabeça não exista nada pior do que o cancro); e enquanto estamos aqui, sem nenhum diagnóstico a fazer, é preciso viver. É que nós já estamos aqui e o tempo vai passar na mesma: para quê viver na angústia, nos medos imaginados, na negatividade se podemos simplesmente acordar todos os dias e escolher saborear as pequenas coisas?
(Não tão) subitamente desapareceu-me a dor no pâncreas e a dor na coluna melhorou bastante e agora consigo respirar outra vez. Até setembro, na pior das hipóteses mas vou fazer um esforço para melhorar.





Um grande abraço. Que no meio disto tudo, e especialmente no meio do medo, consigas viver uma vida cheia. Obrigada por nos honrares com esta partilha.
Um abraço, Marisa. Em tendo de ter acompanhamento médico, que seja alguém gentil e que tem disponibilidade para reparar em coisas bonitas.